Então, em razão de ter estourado uma hérnia de disco na coluna lombar – hérnia essa da qual eu sequer conhecia a existência – tive que deixar totalmente de lado a dedicação a este blog e, muito pior, às próprias viagens.
Depois de um longo período de molho, aproximadamente 90 dias, e sem ter podido viajar em nenhum feriado, desde o carnaval, nem ter desfrutado nada do verão, finalmente, resolvi me aventurar e, contrariando recomendações médicas, viajar de ônibus a Buenos Aires. Por que, mais uma vez, Buenos Aires? Porque, como já disse em outras oportunidades, nem considero mais as idas a Buenos Aires como viagens, mas como um retorno a um lugar “meu”, querido, conhecido, seguro, sem grandes novidades. E era exatamente isso que eu queria: simplesmente curtir Buenos Aires, matar as saudades mesmo, depois de um ano sem andar por lá. Ocorre que, mesmo não havendo reservado a tal viagem de última hora, houve um contratempo e a excursão que eu havia comprado terminou por ser cancelada, de forma que eu, minha irmã e um casal de amigos que nos acompanhou tivemos que migrar, de última hora, para um outro “pacote” (prometo, aliás, JURO, que ainda hei de dedicar um post inteirinho aos famigerados “pacotes”!). No caso específico desse nosso, pode-se dizer que era mesmo como um daqueles pacotes abandonados em aeroportos e que, normalmente trazem uma bomba dentro. E foi exatamente isso: uma bomba! Não há melhor palavra para definir o que foi essa excursão. Evidente que, apesar disso, e, como sempre aliás, aproveitei e muito Buenos Aires! Pois bem. Mesmo antes de sair de casa eu já tinha notícias de qual seria o nosso hotel e, analisando a localização no mapa, cheguei a brincar com a minha irmã dizendo que, definitivamente, iríamos parar embaixo dos viadutos de Buenos Aires, lá nos cafundós da 9 de julho, próximo de San Telmo. Mas, mesmo sabedora de tudo isso, nenhuma imaginação era capaz de atingir o que era, de fato, o tal hotel. Olha, nem sei se existe palavra para definir aquilo. Confesso que à medida em que o ônibus se aproximava da localização do tal hotel, na esquina do lindo e antigo prédio da estação de trens da “Plaza de La Constitución ”, era como se nós estivéssemos chegando à Cracolândia, em São Paulo. Igualzinho. Sem tirar, nem por.
Imediatamente, olhando pelo vidro do ônibus, pude perceber que a população local se tratava, basicamente, de imigrantes bolivianos e peruanos. Sem nenhum preconceito nisso, mas, consabido, que, em Buenos Aires , são esses imigrantes que engrossam as “favelas” que a cada dia crescem mais nos arredores da cidade, especialmente na entrada, às margens da própria avenida 9 de julho. Dito e feito. Em seguidinha, já pude avistar vários restaurantes especializados em comida peruana, o que reforçou a minha tese.
Quando finalmente o ônibus parou na frente daquela espelunca cujo nome ainda ostentava quase que em tom de deboche a expressão “palace”, só o que pude fazer mesmo foi rir, afinal, chorar iria resolver alguma coisa? Como sempre, preferi encarar a indiada toda como mais uma oportunidade de conhecer um lado, pelo menos por mim, nunca antes visto de Buenos Aires ou, como me disse um dos tantos taxistas que nos levaram de volta à Cracolândia, depois de dias e noites de divertimentos no coração da cidade, certamente eu teria histórias a contar aos meus netos. Definitivamente, também prefiro encarar assim. Todavia, isso não era tudo. Como diz, sabiamente, a mãe de uma amiga minha, pessoas incompetentes se cercam de pessoas incompetentes e vice versa. Assim, o que esperar do grupo que acompanhava aquele tipo de “guia”? O óbvio. Que tivessem o mesmo nível intelectual subterrâneo do próprio guia. Inicialmente, confesso, tive pena dessas pessoas, por pensar que era a primeira vez que iam a Buenos Aires e estavam experimentando uma visão nada gloriosa da cidade. Todavia, depois de um breve tempo de convivência, cheguei à conclusão de que, para aquele tipo de turista, isso não fazia a mínima diferença. Ouvi ignorâncias das mais diversas ordens. Só para ilustrar, fui obrigada a ouvir coisas do tipo “na Catedral tem uma “parte” que só abrem de vez em quando e parece que é para um tal de San Martin”. Tradução: essa pessoa estava se referindo ao túmulo do maior herói argentino, San Martin, chamado por todos de “El Libertador”, que se encontra justamente dentro da catedral de Buenos Aires, na praça de maio e que é guardado as 24h do dia por sentinelas que fazem a cerimônia de troca de guarda sempre às 10h da manhã. Um ritual, por sinal, muito bonito de ser assistido. Talvez não por pessoas que nem idéia tenham do que esteja acontecendo durante o ritual, como foi o caso dessa senhora. Que as atuais gerações de jovens nada saibam sobre história, confesso que nem me choco mais, mas que pessoas que estudaram a história da América Latina sequer tenham notícia de quem foi San Martin, isso sim me choca e muito. Aliás, sempre me pergunto isso. Sempre me questiono acerca do que leva certas pessoas a certos lugares. O que as motiva a viajar e se lançar muitas vezes ao desconhecido? No meu caso, certamente, parte da motivação é a curiosidade quase doentia de ver, estar e conhecer os lugares onde aconteceram as coisas que estudei na história. As ruas, os restaurantes, as casas por onde transitaram tantos desses personagens instigantes. Mas admito, pelo que tenho visto ao longo de tantas viagens, que não é bem isso que motiva a maioria das pessoas. Fico triste em ver tanta ignorância e só me cabe lamentar. Só me cabe lamentar ver hordas de turistas levados como ovelhas ou vacas de presépio a entrar e “conhecer” prédios, monumentos e lugares que nada significam para eles. Talvez por isso seja tão comum ver pessoas fazendo fotografias inconcebíveis. Ver gente literalmente encoxando monumentos históricos e achando muita graça disso. Juro pela minha saúde que depois de ver e ouvir tanta ignorância, só o que eu pedia a Deus, o tempo todo, era que me mantivesse incólume a isso. Que me permitisse construir um muro, um bloqueio dentro da minha cabeça de forma que eu sequer tivesse que ouvir as barbaridades que eu ouvi. Claro que, mesmo com esse filtro, muita coisa passou né e tive que conviver, ainda que por pouco tempo, com esse tipo de turista, porque bastou “ancorarmos” na cidade para que eu e meus amigos rapidamente nos desgarrássemos desse “grupo”. Lembrei muito, mas muito mesmo, da participação daquele consultor de etiqueta, o Fábio Arruda, em um desses realitys da TV, quando, num momento de completo desespero e aos prantos ele afirmava “esse não é o meu grupo de amizade. Não é o tipo de pessoas com quem estou acostumado a conviver”. Faço minhas as palavras dele e, cada vez mais me convenço de que não há nada melhor do que viajar sozinha ou acompanhada de amigos próximos a quem se possa mandar à merda sem que isso gere nenhum tipo de constrangimento. Não suporto a idéia de me sentir vinculada, amarrada a esse tipo de gente só por estar em um grupo, a pessoas que nada tem a ver comigo e que, por isso, tem interesses, ainda que turísticos, diametralmente opostos aos meus. E isso, por favor, nada tem a ver com distinção de classe ou diferença econômica. Até porque, cultura, em definitivo, não se distingue por classe social. O que mais se vê, aliás, em termos turísticos, são “novos ricos” imersos na mais profunda ignorância e que viajam aos bandos, como massas humanas involuntárias, ou seja, sem nem saber por que ou para que, para destinos considerados “da moda”. Lamentável, como eu já disse antes. E que Deus continue me dando a bênção de estar bem longe desses destinos turísticos pré-fabricados e de pronto uso. Apesar de tudo isso, desse contexto infeliz dessa última viagem, eu e meus amigos, protegidos pelo muro que construímos ao nosso redor e principalmente dentro das nossas cabeças conseguimos aproveitar e muito mais essa estada na capital porteña. De novidade mesmo, não houve nada. Repetimos antigos e bons programas, como recorrer a calle florida em busca de boas ofertas, saborear o inigualável sorvete do Freddo, jantar em um dos tantos restaurantes do Puerto Madero, passear de charrete pelo parque de Palermo, desfrutar da feira de artesanatos na Recoleta, assistir a uma ópera, estilo broadway, em uma das tantas casas de espetáculo na corrientes, tomar um chope bem gelado no emblemático café Tortoni, ir até o delta do tigre e em vez de, mais uma vez, fazer o passeio de barco, aproveitar a feira do Mercado de los Frutos, além de desfrutar mais um café na Havana e, depois ,recorrer outros cafés e livrarias na Avenida Santa Fé, comer uma pizza em uma das tantas padarias/confeitarias da calle lavalle e fechar tudo isso com chave de ouro e ao som de um bom rock and roll, regado a muito chope no Hard Rock café. Enfim, é como dizia o Renato Russo, afinal “podem até maltratar meu coração, mas meu espírito ninguém vai conseguir quebrar”.
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