domingo, 21 de novembro de 2010

Sobre as minhas histórias



Tava aqui pensando sobre o que escrever, em que ordem, enfim... Tentando ser um pouco menos egoísta. Deixando de pensar no que eu gosto de escrever e mais no que, talvez, as pessoas fossem gostar de ler. É um exercício difícil esse. Eu diria que cotidiano mesmo, especialmente quando se resolve publicar, mostrar, o que se escreve. É meio diferente e, ao mesmo tempo, muito parecido com escrever um diário. Por anos, durante a adolescência, eu escrevi diários. Sempre gostei de escrever e, mesmo quando a moda era customizar agendas com “trocentos milhões de clips coloridos”, o que eu gostava mesmo era de escrever nas tais agendas, contar histórias. Esses dias eu achei algumas dessas agendas e me diverti muito com o que eu li, além de, por outro lado, me assustar percebendo que algumas coisas não mudaram muito não e que, talvez, o tal amadurecimento não tenha sido assim tão efetivo...rsrsrs  Mas por falar nas histórias... era nisso mesmo que eu estava pensando! Lembrando do quanto alguns amigos pediam que contasse as minhas “histórias engraçadas” que aconteciam, especialmente, durante as viagens. Espantoso como todos ou a maioria, enquanto eu estou viajando, escrevem e dizem que estão ansiosos por ver as fotos, mas especialmente, por ouvir “as minhas histórias”. Como outros chegam a verbalizar que estão com saudades minhas, mas principalmente, das “minhas histórias” e que só imaginam quantas “histórias novas” eu não vou ter prá contar. Engraçado isso. Uma amiga, certa feita, aqui mesmo, na minha casa, depois de ouvir umas das tantas “minhas histórias”, e de se matar de rir, disse que eu devia escrevê-las em algum lugar. Guardá-las. Com a riqueza dos detalhes que as tornavam cômicas, porque, com o passar do tempo, era possível que eu esquecesse, se não das próprias histórias, certamente dos detalhes. Lembro que eu ri e disse que isso também já havia me ocorrido, mas como daquelas coisas que vem à cabeça e logo se vão, não passou disso na época. Quem diria, então, que passados alguns anos, finalmente, eu perdesse de vez a pouca vergonha que ainda me restava e elegesse um lugar, um espaço, para guardar e, principalmente, compartilhar todas essas histórias malucas. E, por conta disso, pensei em inaugurar uma série intitulada “das coisas que, DEFINITIVAMENTE, só acontecem comigo”. Porque, sim, nenhuma dessas “minhas histórias” é fictícia. Todas aconteceram, de fato, e exatamente da forma que eu descrevo. Hoje à tarde eu estava viajando nos meus pensamentos e lembrei de um episódio cômico, hilário, que aconteceu comigo quando viajei a Manaus, pela 1ª e única vez que estive lá, em 2005. E engraçado porque, antes de lembrar disso, eu havia mesmo quase que completamente esquecido dessa história...
Reconheço que tenho muita dificuldade nisso, mas vou tentar resumir.
Era mais um dia de calor escaldante em Manaus, num mês de abril, em 2005. Eu, como boa turista, resolvi encarar uma excursão de barco pelo rio Negro,  para passar o dia e fazer vários passeios no principal e mais antigo dos hotéis de selva da Amazônia. Aquele mesmo. Todo verdinho, para se confundir com a floresta, e com um nome bem americanizado, pois, afinal, o público alvo sempre foi e ainda continua sendo os gringos. É sim, também, o mais charmoso, onde o então casal Leonardo di Caprio e Gisele Büdchen fizeram aparições e onde outras tantas celebridades já deram e seguem dando o ar da sua graça. Salvo engano, este hotel foi projeto ou pelo menos teve pitaco de Oscar Niemeyer e foi uma coisa muito inusitada para a época, (creio que 1982?), pois consiste num conjunto de grandes palafitas no meio da selva, com passarelas que as ligam e passam praticamente na copa das árvores. Por baixo de tudo, água em abundância. Eu lembro de ser criança, sempre apaixonada por bichos, e ver o Jacques Custeau, na sua excursão pela Amazônia, com o seu bichinho de estimação brazuca, a inesquecível ariranha Caxá, passeando por este hotel aí e eu pensando seriamente: um dia vou ir neste lugar! Ah, se vou! E fui, de fato, mas, infelizmente, a “coisa” não foi bem assim como eu havia imaginado não... Pois bem. Fui deixada pelo meu namorado, bem cedinho da manhã, no píer do Hotel Tropical, na Ponta Negra em Manaus, de onde partem a maioria, senão todos, dos barcos que vão para os tais hotéis de selva. Meu passeio era de dia inteiro e incluída recepção com café no hotel, conhecer o boto cor de rosa, além de uma casa de caboclo, em uma comunidade ribeirinha, almoço incluído no hotel, pesca à piranha, passeio de barco para conhecer os iguarapés e iguapós e banho de rio, com retorno a Manaus no final do dia. Pelo que lembro, era isso. E não era nem um pouco barato não, prá não dizer que era caríssimo! Ficar no hotel, então, era obsceno! Coisa só prá gringo que ganha em euros mesmo. Lembro que só lamentei mesmo não passar a noite por não poder participar da “focagem de jacaré”... Quer dizer, a essas alturas eu ainda lamentava isso, porque depois dei foi graças a Deus por não ter que passar a noite por lá. Buenas, mas voltando, ainda à partida no píer, em Manaus. Então, foi justo aí que já aconteceu a 1ª “novidade”, pois quando cheguei no tal píer, eu e mais o povo todo que ia na tal excursão, havia um barco grande o bonito com o nome do tal hotel pintado na lateral e todos nós, por óbvio, acreditamos que era nesse aí que partiríamos. Ledo engano. Passados alguns minutos para a hora do embarque e já com um sol de rachar e um calorão dos infernos, o tal barco partiu sozinho e, detalhe, ao lado dele havia outro bem menor, bem mais acanhado e também com o tal logo do hotel. Adivinhem? Sim! Era nessa “fubica” que iríamos embarcar. Não sou muito boa nisso, mas, mal comparando, a visão daquele momento seria como um fuca velho escondido atrás de uma limosine nova. E, como disse, claro que nós fomos no fuca! Eu só ria. Ia fazer o que, no lugar disso? Atrasados, partimos. Dentro da tal embarcação, gente das mais diversas faunas, vamos assim dizer. Na maioria esmagadora, gringos. Brasileiros eram poucos. De um total de umas 100 pessoas, acho que uns 10, no máximo. Do meu lado foi sentado um indiano com uma câmera fotográfica do tempo do êpa, mas ele era simpático e até fiz algumas fotos para ele e ele outras para mim. A vantagem de conversar em inglês com um indiano é que a gente fica achando que o nosso inglês está ótimo. Ah! Esqueci de dizer que eu e o indiano ainda tivemos sorte, pois fomos sentados, já que boa parte dos passageiros foi em pé e não era propriamente uma travessia a São José do Norte, de só 25min, mas uma boa viagem de umas 2h de Manaus até o tal hotel. Também não precisava ser muito perspicaz prá perceber que não havia coletes salva-vidas para todo aquele povo, mas nessas horas só há uma coisa mesmo para fazer: segura na mão de Deus e vai!

Avistando o tal hotel



À medida que o barco foi se aproximando do tal hotel, eu, que nunca posso perder uma única foto e já estava atenta há horas, percebi que nos telhados das diversas palafitas havia alguma coisa escrita, mas, com a distância, e, mesmo com o zoom da câmera, eu ainda não conseguia ler.   Só quando estávamos mais próximos foi que entendi por quê. Era o logo, o nome do hotel, mas a pintura estava tão velha, tão descascada que ficava difícil decifrar o que eram as letras em branco numa superfície pintada de verde e o que era latão descascado mesmo. Por aí já deu para sentir a vibe da coisa. Percebi que aquela pintura devia datar da inauguração do hotel.  

Um pouco mais de perto...





Nossa efetiva chegada no píer do hotel foi cômica, senão trágica. Explico. Primeiro, porque assim que o barco atracou era possível ver a movimentação e a correria de alguns funcionários do hotel, na busca por instrumentos musicais “indígenas”, além de uma série de colares de madeira e sementes que, à medida em que íamos desembarcando, eles penduravam no nosso pescoço. Uma coisa assim, bem ilha da fantasia mesmo, mas totalmente fake. Eu, a essas alturas, já estava às gargalhadas e lamentando, profundamente, não ter ninguém mais íntimo por perto para poder compartilhar as minhas reflexões profundas e antropológicas sobre a cena. Realizem: uma “índia” jovem, visivelmente fora de forma, como duas cascas de coco como parte superior do biquíni e uma saia de palha de alguma coisa, se requebrando ao som de um batuque desafinado de outros “índios” colegas seus, que nos davam as boas-vindas. Simplesmente uma visão inesquecível. Mais tarde, um desses mesmos “índios” estava servindo a bebida, durante o almoço e a tal índia, certamente, deveria estar lá dentro, na cozinha. Nossa senhora! rsrsrsrr. Nesse exato momento, se eu tinha ainda alguma dúvida do golpe que eu estava sofrendo e, com o perdão do trocadilho, da indiada em que estava me metendo, essa foi completamente dissipada. Além disso, bastou que desembarcássemos todos para que o barco fosse “preso”. Isso mesmo. Havia uns policiais da capitania dos portos, eu acho, e mal chegamos e nosso barco, o fuca aquele, foi apreendido. E prá explicar pro indiano o que estava acontecendo? rsrsrsr Passado o choque inicial com a “recepção para gringo ver”, considerando o atraso com que saímos, deveríamos ter chegado por lá de manhã ainda, mas fomos chegar, de fato, já no horário do almoço, perdendo os passeios da manhã, entre eles conhecer o tal boto cor de rosa. Mas isso não era nada... A confusão maior ainda estava por vir, pois, até aí acreditávamos que os passeios todos, mesmo com o atraso, seriam cumpridos, além do que, por óbvio, retornaríamos a Manaus com o mesmo atraso que houve na partida. Que nada! Mal chegamos, fomos informados de que retornaríamos no exato horário previsto e, assim, por óbvio, deixaríamos de fazer os passeios que, segundo o hotel, já havíamos perdido. Eu que, até então estava levando tudo na esportiva, por óbvio que não me contive diante de tamanho abuso e fui, sim, como de regra, brigar pelos meus direitos e os de todos os demais que estavam ali. Foi nesse momento em que conheci os brasileiros do grupo, pois estávamos todos juntos, furiosos reclamando. Claro que as líderes da rebelião éramos eu e uma paulista e, assim, não demorou muito para um funcionário da gerência do hotel nos chamar de canto para tentarmos resolver o impasse. Eu estava esperando, enfim, uma solução para o conflito, quando o tal sujeito me sai com uma proposta, no mínimo, inusitada: a de que eu e a tal paulista ficássemos no hotel naquela noite, sem custos adicionais, fizéssemos todos os passeios que faltaram e voltássemos a Manaus no dia seguinte, com a condição de que calássemos imediatamente a boca e, segundo eles, parássemos de insuflar o grupo “contra” o hotel. Olha! Sinceramente. Nem sei dizer hoje qual foi o meu sentimento, mas lembro bem qual foi a minha reação. Evidente que eu disse não à tal proposta e ainda fiz com que eles tratassem de cumprir todos os passeios que faltavam, sob pena de eu fazer um escândalo maior ainda, além de, lógico, acionar o hotel na Justiça e colocar a boca no trombone com a imprensa local. E ainda disse, furiosa, que de jeito nenhum que eu ia passar a noite naquela espelunca e que eles tratassem de me levar de volta a Manaus, além de providenciar transporte para mim e todos os demais turistas, quando lá chegássemos, pois, diferente do inicialmente programado, não íamos mais chegar de dia, à tardinha, mas, agora, tarde da noite. Quanto à paulista, diferente de mim, que tenho sempre que ser a “paladina da justiça” e a defensora dos “frascos e comprimidos”, ela aceitou a proposta. Realmente, cada homem tem seu preço. E o meu, em definitivo, não é assim tão barato. Depois de toda essa adrenalina inicial, finalmente, fomos almoçar e fazer os tais passeios ainda possíveis, com exceção de conhecer o boto cor-de-rosa, pois isso deveríamos ter feito de manhã bem cedo, na hora em que ele aparece. Acho que não vou esquecer nunca o choro compulsivo de uma moça brasileira, aeromoça, que vivia no Líbano, e há 13 anos não vinha ao Brasil e que só o que sabia dizer era que tinha atravessado o mundo prá ver o boto cor-de-rosa e não ia ver. Eu tentei consolar. Juro que tentei. Tentei até fazer graça com a situação, mas foi impossível. Se alguém ainda tem dúvida ou não entende bem o que é um “dano moral” ou frustração de expectativa, aí está um exemplo bem claro, concreto e palpável, materializado naquelas lágrimas e que, dificilmente, haverá dinheiro no mundo capaz de pagar. Ultrapassados esses episódios tragicômicos, o resto do passeio até foi divertido e é indiscutível a beleza e a imensidão da floresta amazônica. Uma coisa realmente de fazer a gente perder a fala.

Os outro itens do passeio eram todos também uma grande palhaçada. A tal visita à casa de caboclo... Me poupe! Só faltava a gente enxergar as pessoas correndo prá trás da casa e se travestindo em caboclos prá nos receber. Lamentável. Ah! Hospitaleiramente, eles também ofereciam sucos de frutas da região e eu só conseguia, nesse momento, ouvir, dentro da minha cabeça, como se fosse grilo falante, as palavras do meu namorado, com sua peculiar delicadeza, dizendo: “Tchê, não vai inventar de beber nada que não seja industrializado que vais ficar com caganeira!”. Assim, nada mais me restou a não ser beber mesmo uma cerveja. Detalhe: comprada diretamente dos “caboclos” e por um preço, mais uma vez, obsceno. Depois disso, ainda houve a pesca das piranhas. Bah! Isso sim foi prá matar. Talvez mesmo o “the best of” de toda a indiada. Nossa! Um calor do demo, nós todos amontoados dentro de uma canoa parada em uma água parada que mais parecia um esgoto a um rio. Cada um com um caniço de eficácia duvidosa, onde já estava uma isca colocada pelo “piloto” da canoa. Todos quietos, sem poder se mexer e nem dar um pio, porque isso iria “espantar as piranhas”. Vários mosquitos e outros insetos nos atacando. Olha, sinceramente, até espírito esportivo tem limite! Lógico que ninguém pescou piranha nenhuma! Depois, seguimos na tal canoa para um lugar mais afastado, uma espécie de praia na beira do rio, pois, afinal, ali não podíamos tomar banho já que havia piranhas, né? rsrsrs E, graças a Deus, finalmente, pude me refrescar com um belo banho no rio negro prá fechar com chave de ouro a indiada mor.

Lembro que eu tava preocupada de voltar toda molhada prá Manaus depois do tal mergulho. Que nada! Lá o calor é tamanho que, em seguidinha, eu já estava seca. Só não podia imaginar era a confusão que ainda estava por vir. Mesmo depois de armar toda a guerra, especialmente exigindo o translado de todo mundo até os hotéis eu mesma não fui na Van disponibilizada pelo hotel, pois acabei fazendo amizade com uma casal manauara que me deu uma carona. Conforme previsto, chegamos tarde da noite em Manaus e só quando cheguei lá foi que lembrei que eu tinha celular, até porque, no meio da mata não tem sinal mesmo. Então, prá minha surpresa, havia um zilhão de chamadas não atendidas do meu namorado, que estava a trabalho em Belém, Pará, e de um amigo dele lá de Manaus mesmo. Assim que eu vi o número expressivo de ligações, retornei para saber o que havia e foi quando, com voz de alívio, ele perguntou se eu estava bem. Não entendi nada e disse que sim. Adivinhem? Ele havia resolvido me fazer uma surpresa e deixado as chaves do carro para o tal amigo ir me buscar no porto de Manaus, no meu horário previsto de chegada, às 18h. Ocorre que euzinha não sabia nada dessa resolução aí dele e, além disso, só cheguei passando das 23h. Não bastasse isso, um barco de turistas havia afundado naquela tarde mesmo. Resumo da ópera: eu odeio surpresas! rsrsrsrs  Há, ainda, tantos outros detalhes, da mesma forma engraçados, mas dos quais, como previa sabiamente aquela minha amiga, não lembro mais. Porém, não quero que pensem que eu não gostei de Manaus. Pelo contrário, gostei e muito e, em outra oportunidade, escrevo um post só sobre as dicas de passeios e de como evitar as indiadas monstras iguais a essa minha aí.

2 comentários:

  1. Ah, tinha certeza que o post seria relacionado ao povo manauara! E depois de apreciar essas belas histórias tenho certeza que algumas coisas só acontecem contigo mesmo.. Ainda, se essa foi só o começo, me atrevo a dizer que minhas indiadas são nada comparadas as tuas hahahaha

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  2. hahaha Me acabei rindo aqui com os relatos desse seu passeio bem estilão férias frustradas. E ria mais ainda pq te imaginava contando, impagável!! :)

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